1º Grito Nacional pela Cidadania LGBT e Contra a Homofobia

•março 21, 2010 • Deixe um comentário

A Direção da Associação Brasileira de Lésbicas , Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT, reunida em 02 de março de 2010, resolveu convocar todas as pessoas ativistas de suas 237 organizações afiliadas, assim como organizações e pessoas aliadas, para a I Marcha Nacional contra a Homofobia, vinda de todas as 27 unidades da federação, tendo como destino a cidade de Brasília. No dia 19 de maio de 2010, será realizado o 1º Grito Nacional pela Cidadania LGBT e Contra a Homofobia, com concentração às 9 Horas, no gramado da Esplanada dos Ministérios, em frente à Catedral metropolitana de Brasília.

Em 17 de maio é comemorado em todo o mundo o Dia Mundial contra a Homofobia (ódio, agressão, violência contra Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – LGBT).
A data é uma vitória do Movimento que conseguiu retirar a homossexualidade da classificação internacional de doenças da Organização Mundial de Saúde, em 17 de maio de 1990.

No Brasil , todos os dias , 20 milhões de brasileiras e brasileiros assumidamente lésbicas, gays, bissexuais, travestis ou transexuais -LGBT têm violados os seus direitos humanos, civis , econômicos, sociais e políticos. “Religiosos” fundamentalistas, utilizam-se dos Meios de Comunicação públicos, das Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas, Câmara Federal e Senado para pregar o ódio aos cidadãos e cidadãs LGBT e impedir que o artigo 5 da Constituição federal ( “todos são iguais perante a lei”) seja estendido aos milhões de LGBT do Brasil. Sem nenhum respeito ao Estado Laico, os fundamentalistas religiosos utilizam-se de recursos e espaços públicos (escolas, unidades de saúde, secretarias de governo, praças e avenidas públicas, auditórios do legislativo, executivo e judiciário) para humilhar, atacar, e pregar todo seu ódio contra cidadãos e cidadãs LGBT.

O resultado desse ataque dos Fundamentalistas religiosos tem sido:
O assassinato de um LGBT a cada dois no Brasil (dados do Grupo Gay da Bahia – GGB) por conta de sua orientação sexual (Bi ou Homossexual) ou identidade de gênero (Travestis ou Transexuais)
O Congresso Nacional não aprova nenhuma lei que garanta a igualdade de direitos entre cidadãos(ãs) Heterossexuais e Homossexuais no Brasil.
O Supremo Tribunal Federal não julga as Arguições de Descumprimento de Preceitos Fundamentais e Ações Diretas de Inconstitucionalidade que favoreçam a igualdade de direitos no Brasil.
O Executivo Federal não implementa na sua totalidade o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT
Centenas de adolescentes e jovens LGBT são expulsos diariamente de suas casas
Milhares de LGBT são demitidos ou perseguidos no trabalho por discriminação sexual
Travestis, Transexuais, Gays e Lésbicas abandonam as escolas por falta de uma política de respeito à diversidade sexual nas escolas brasileiras
Os orçamentos da união, estados e municípios, nada ou pouco contemplam recursos para ações e políticas públicas LGBT.
O Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais precisam pactuar e colocar em prática a Política Integral da Saúde LGBT.
As Secretarias de Justiça, Segurança Pública, Direitos Humanos e Guardas-Municipais não possuem uma política permanente de respeito ao público vulnerável LGBT, agredindo nossa comunidade, não apurando os crimes de homicídios e latrocínios contra LGBT e nem prendendo seguranças particulares que espancam e expulsam LGBT de festas, shoppings, e comércio em geral.

A 1ª Marcha Nacional LGBT exige das autoridades Públicas Brasileiras :

Garantia do Estado Laico (Estado em que não há nenhuma religião oficial, as manifestações religiosas são respeitadas, mas não devem interferir nas decisões governamentais)
Combate ao Fundamentalismo Religioso.
Executivo: Cumprimento do Plano Nacional LGBT na sua totalidade, especialmente nas ações de Educação, Saúde, Segurança e Direitos Humanos, além de orçamentos e metas definidas para as ações.
Legislativo: Aprovação imediata do PLC 122/2006 (Combate a toda discriminação, incluindo a homofobia).
Judiciário : Decisão Favorável sobre União Estável entre casais homoafetivos, bem como a mudança de nome de pessoas transexuais.

Viva a
I Marcha Nacional LGBT contra a Homofobia no Brasil.
1º Grito Nacional pela Cidadania LGBT e Contra a Homofobia
Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT

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Escuro do Mundo

•março 21, 2010 • Deixe um comentário

Um amigo outro dia desses passou aqui em casa e levou a mim e a meu namorado para conhecer o “escuro do mundo”, talvez não propriamente o “mundo”, mas o mundo da prostituição masculina de Porto Alegre. Meu namorado não conhecida (e ainda não conhece) muito bem a cidade, e nos pareceu uma ótima experiência antropológica (porque conhecer é viver, e não o contrário, apesar de concordar com muitas das teorias marxistas) percorrer, de carro, na suposta segurança de uma Parati seminova, a concorrida José Bonifácio, a JB para os gaúchos mais ligadas à cultura da redenção*.

Confesso que não havia muitos corpos em exposição: alguns magros e esqueléticos negros encostados às árvores tristes pela noite ventosa, um e outro latin lover a mostrar o único dom que Deus lhes dera – dizem que o dom é imerecido, é graça, nada de graça acham nisso meus leitores que centenas e (talvez) milhares de reais pagam por técnicas quase cabalísticas de crescimento peniano – e um menino que timidamente acariciava sua região pubiana (seu pênis adolescido!) numa tentativa de excitar os que por ali passavam. Pra dizer a verdade, e bem a verdade (porque quem escreve não mente, literaturiza), o que em nossa frente estava era um guri, um pequeno pedaço de carne de segunda (que logo seria moída!) na grande e faminta boca dos lobos de Poa, vorazes mãos e bocas semidesdentadas dos velhos sedentos de sexo e pedofilia (talvez um pouquinho menos de literariedade e mais realidade seria bom, mas isso é irrelevante para quem escreve).

Aí me veio a música de Cazuza: “eu queria ver o escuro do mundo, onde está o que você quer”, tal qual a visão de Jeremias ou Ezequiel, como uma epifania, talvez uma mensagem de algum Deus (por que não escreveria com “d” maiúsculo?) guei, quem sabe Michael Jackson, apesar de ele não ter ainda morrido, me chamando a atenção pra duas coisas prementes: jovens gueis que a troco de alguns pilas se expõem a toda espécie de perigos na noite de Porto Alegre e carência de um sistema organizado e responsável de prostituição masculina na Província de São Pedro, que ainda continua sendo aquele minúsculo pedaço de terra produtor de charque com dois ou três teatros na noite suja da capital de 120 mil habitantes.

E aí mora um debate quente: o que fazer com a prostituição, legalizá-la? Não protegê-la com o nosso sistema legal? E o que dizer da prostituição masculina, e masculina guei, relegá-la ao escuro, ao gueto dos parques, periferias e outros locais de estigmatização? Ou orná-la do luxo e do certo respeito de que goza a familiar e meiga Tia C? Tolerar a presença de menores gueis na pseudoprostituição da JB?

O que nos resta, a nós, gueis e simpatizantes um pouco mais esclarecidos que as luzes violentadas pela prostituição suja e ilegal da JB, é apreciar o “escuro do mundo”, percorrer a estreita e gosmenta rua vizinha da Redenção, sob a proteção de nossos carros seminovos, imaginando que lindo seria um local seguro, limpo, com muitos corpos saudáveis e malhados à espera de clientes endinheirados, prostitutos maiores (a redenção aos domingos já deveria dar conta do afã por exposição do qual os menores gueis sofrem). O que realmente se quer, no entanto, é o escuro do mundo. É aí que “está o que você quer”.

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*Explicarei, espero!, em texto posterior, talvez com a ajuda de um intelectual-amigo, o que é e como se aplica a chamada “cultura da redenção”.

Homofobia Muçulmana na TV!

•março 21, 2010 • Deixe um comentário

Alguém sabe me dizer, pelamordedeus, o que é que aquele homem com roupas típicas da religião muçulmana diz em rede nacional acerca da família e dos homossexuais?

Essa semana eu estava sentado no sofá, junto com meu namorado, e vimos, estarrecidos, esse senhor tipicamente vestido falando sobre o modelo familiar aceitável pela religião muçulmana (como se houvesse uma unidade em tal fé…). Ocorre que, impactado pela fórmula muçulmano+TV+gueis+vinda do presidente do Irã ao Brasil, deixei de prestar atenção às palavras do senhor que falava em cadeia nacional, em comercial com apoio institucional da Rede Globo.

Bem, quando alguém me explicar direitinho o que o senhor muçulmano diz eu emito alguma opinião. No entanto, contento-me a dizer duas coisas: não há unidade na religião muçulmana, assim como na evangélica (protestante, cristã, como queiram…), para que um tipo venha a emitir uma opinião unitária em nome de uma comunidade composta por milhões (mais de um um bilhão de pessoas) de adeptos, pertencentes a diferentes países e regiões do globo, distintas raças e etnias; segundo, a religiosidade, como característica intrínseca ao ser humano, não pertence a igrejas, instituições, governos, o que nos leva ao seguinte raciocínio: cada um vive a fé, a religião, a religiosidade conforme seu juízo interno. E isso nos aproxima mais uma vez do Brasil e nos fazer pensar acerca da resistência de alguns setores “conservadores” (conservadores no sentido de conservarem o poderia institucional – econômico – das igrejas) da sociedade brasileira em aceitar a aprovação do PCL 122, que criminaliza o preconceito contra homossexuais, entre outras coisas.

Quando o assunto é esse, evangélicos e católicos se unem e, em uníssono, reprovam a concessão de mais humanidade para os humanos, de mais justiça para uma sociedade desprovida da equidade necessária para que as pessoas vivam bem, no chamado estado de “bem-estar social”, característica de nosso stablishment neoliberal. Digo-vos a verdade, a Verdade tão propagada pelo Cristo chamado Jesus: não existe uma igreja evangélica unívoca, nem muito menos uma denominação; o que todas são é um aglomerado de pessoas com opiniões distintas lutando pela manutenção de crenças que permitam a continuidade do sistema fiel-dízimo-hierarquia.

Agora, please, alguém me diga o que o muçulmano diz na propaganda; alguém também me diga o que os gueis (alguns, a minoria, é certo) querem com o “reconhecimento” por parte de algumas igrejas cristãs e religiões outras de sua “humanidade homossexual”*? PELAMORDEDEUS, fundem uma igreja, rezem a (ao) deus, ajudem aos pobres, preguem o amor, mas não caiam na armadilha da fórmula que antes expus.

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* Termo que eu criei pra tentar expressar a imanência do ser homossexual, isto é, diferentemente de outras teorias que pregam uma suposta “condição homossexual”, com a expressão por mim formulada desejo manifestar minha crença em uma homossexualidade imanentista.

Bem Incompressível

•março 21, 2010 • Deixe um comentário

Retomando a reflexão feita pelo intelectual brasileiro Antonio Candido no texto O Direito à Literatura, que por sua vez tece seus argumentos com base no pensamento do sociólogo dominicano Louis-Joseph Lebret, que atuou no Brasil durantes os anos de 1940 e 1960, a respeito da distinção que este fazia entre bens compressíveis e incompressíveis, é possível advogar o direito das minorias à igualdade de tratamento e da necessidade da existência de leis específicas a este respeito. É preciso, antes, apresentar o que são bens compressíveis e incompressíveis.

De acordo com Candido, bens compressíveis são aqueles que podem ser comprimidos, isto é, que são dispensáveis, não satisfazem necessidades essenciais do ser humano. Os bens incompressíveis, ao contrário, representam necessidades básicas, tais como o são a alimentação, a educação e o vestuário, por exemplo. Assim, a igualdade entre os sujeitos sociais e a necessidade da existência de leis que assegurem essa igualdade configuram-se nesse cenário de bens incompressíveis.

No último domingo (13 de dezembro) soube que pela primeira vez na História uma mulher declaradamente lésbica, Annise Parker, foi eleita prefeita de uma grande cidade . Estou falando da cidade de Houston, nos EUA. Fatos como esse e outros, como a aprovação da Lei de Adoção no Uruguay ou a autorização da justiça portenha (apesar de anulada por uma juíza politica-partidariamente juíza) para que um casal de homossexuais masculinos tivesse sua união reconhecida por um cartório como matrimônio, apontam para o entendimento da sociedade de que leis pró-minorias não são caridade de políticos friendly, mas sim necessidades incompressíveis dos seres humanos.

Antigamente dizia-se largamente na classe média brasileiras que os empregados não tinham necessidade de sobremesa ou de descansar aos domingos, como nos ilustra Candido no mesmo texto citado, já que não estavam acostumados a essas dádivas divinas dadas exclusivamente à classe dominante. No entanto, com o passar do tempo e com o arregalar do olho da opinião pública, o bem-estar e a alimentação passaram a, pelo menos no discurso, serem considerados como parte do repertório dos direitos humanos. Exemplo disso são as políticas do governo federal de habitação e alimentação, como os programas de financiamento de bens móveis e imóveis e bolsas que garantiriam o estabelecimento de um padrão mínimo de qualidade de vida.

Quando escuto ou quando leio, portanto, comentários que argumentam sobre a validade das leis que reconhecem a união (e nem estamos falando de matrimônio, que a sociedade patriarcal – católica, neocatólica e tomada pela influência das religiões evangélicas – reserva o uso para as uniões entre um homem e uma mulher) homossexual, a adoção por parte de casais homossexuais, etc., penso que o cerne do debate, o ponto crítico em si esta-se deixando de lado, que é, como apontei, a igualdade de tratamento e a necessidade da existência de legislação que garanta tal igualdade.

O casamento guei e a adoção de crianças por casais homossexuais, entre outras reivindicações sociais das minorias são, portanto, parte dos bens incompressíveis hoje parcialmente ignorados e amplamente refutados pela sociedade e pelo catolico-evangelicismo brasileiros, respectivamente. O Uruguai e a Argentina com suas Leis de Concubinato e de Adoção, esta apenas no Uruguai, estão passos à frente do Brasil, já que atentam para a não-supressão de direitos tão elementares como o é a igualdade de tratamento em uma sociedade dita democrática.

Carlos Henrique Lucas Lima
Tradutor e escritor

Religolous Guei

•março 20, 2010 • Deixe um comentário

Vi, no período em que estive de férias em Montevideo, o filme-documentário americano apresentado pelo comediante e formador de opinião Bill Maher, apontado pela Associação de Comediantes Americanos como o 36º Melhor Comediante em uma lista de cem seletos, “Religolous”, um sensato filme sobre a insensatez das religiões.

O documentário é incrível. Perdão pela palavra escolhida, já que “incrível” ou impossível de crer é a tenacidade com que milhões e bilhões de pessoas pelo mundo inteiro se apegam a crenças muitas vezes (pra ser bonzinho!) racistas, homofóbicas e geradoras de outros ódios e incoerências. O filme mostra o quanto de incoerência e estupidez existe nas mais diversas crenças religiosas ao redor do Planeta, chamando a atenção para o fato de que, muitas vezes, ações que deveriam ser pautadas pela racionalidade e pensamento crítico são “inspiradas” (veja-se Bush Filho, por exemplo) por revelações e sinais de deus.

Esta produção me fez pensar acerca das chamadas “igrejas inclusivas”, já alvo de matérias de TV e revistas de diversos segmentos, como Super Interessante e DOM. Estas igrejas pregam um cristianismo “cor-de-rosa”, isto é, uma maneira mais ligth do aquelas seguidas pela maioria cristã ao redor do mundo. A partir disso umas quantas questões se levantam, por exemplo, como conciliar o cristianismo evangélico, em sua essência homofóbico, com a orientação sexual homossexual? ou, como explicar a gênese do mundo, calcada esta no relacionamento heterosexual Adão-Eva, uma vez que o modelo homoafetivo aí não se enquadra?

Uma saída menos traumática, a meu ver, é a sugerida pela Igreja da Comunidade Metropolita, Metropolitan Community Church (MCC), denominação cristã americana fundada na década de 1960: um cristianismo mais social, militante, direcionado ao combate às opressões de gênero, etnia e orientação sexual, entre outras, praticamente suprimindo o caráter proselitista das demais denominações cristãs, que, supostamente, estariam seguindo as ordens do Cristo, chamado por elas Jesus, de “ir por todo o mundo e pregar o Evangelho a toda a criatura”.

Resta-nos, como diz Bill Maher, a dúvida, ato que, segundo ele, é mais “humilde”, num mar de arrogância religiosa, onde ganha quem mais barulho faz e mais pessoas pesca. Não sabemos se foi deus Iaveh (Jeovah), Alah, Kirshna, ou seja lá quem ou que criou, amassou o barro, soprou as narinas, fez churrasco da costela de Eva; o que sabemos, e isso sabemos com certeza, é que o simples fato de denominar uma igreja “inclusiva” ou “de inclusão”, não é suficiente. É preciso desmistificar o cristianismo.

Carlos Henrique Lucas Lima

Escritor e Tradutor.