Escuro do Mundo

Um amigo outro dia desses passou aqui em casa e levou a mim e a meu namorado para conhecer o “escuro do mundo”, talvez não propriamente o “mundo”, mas o mundo da prostituição masculina de Porto Alegre. Meu namorado não conhecida (e ainda não conhece) muito bem a cidade, e nos pareceu uma ótima experiência antropológica (porque conhecer é viver, e não o contrário, apesar de concordar com muitas das teorias marxistas) percorrer, de carro, na suposta segurança de uma Parati seminova, a concorrida José Bonifácio, a JB para os gaúchos mais ligadas à cultura da redenção*.

Confesso que não havia muitos corpos em exposição: alguns magros e esqueléticos negros encostados às árvores tristes pela noite ventosa, um e outro latin lover a mostrar o único dom que Deus lhes dera – dizem que o dom é imerecido, é graça, nada de graça acham nisso meus leitores que centenas e (talvez) milhares de reais pagam por técnicas quase cabalísticas de crescimento peniano – e um menino que timidamente acariciava sua região pubiana (seu pênis adolescido!) numa tentativa de excitar os que por ali passavam. Pra dizer a verdade, e bem a verdade (porque quem escreve não mente, literaturiza), o que em nossa frente estava era um guri, um pequeno pedaço de carne de segunda (que logo seria moída!) na grande e faminta boca dos lobos de Poa, vorazes mãos e bocas semidesdentadas dos velhos sedentos de sexo e pedofilia (talvez um pouquinho menos de literariedade e mais realidade seria bom, mas isso é irrelevante para quem escreve).

Aí me veio a música de Cazuza: “eu queria ver o escuro do mundo, onde está o que você quer”, tal qual a visão de Jeremias ou Ezequiel, como uma epifania, talvez uma mensagem de algum Deus (por que não escreveria com “d” maiúsculo?) guei, quem sabe Michael Jackson, apesar de ele não ter ainda morrido, me chamando a atenção pra duas coisas prementes: jovens gueis que a troco de alguns pilas se expõem a toda espécie de perigos na noite de Porto Alegre e carência de um sistema organizado e responsável de prostituição masculina na Província de São Pedro, que ainda continua sendo aquele minúsculo pedaço de terra produtor de charque com dois ou três teatros na noite suja da capital de 120 mil habitantes.

E aí mora um debate quente: o que fazer com a prostituição, legalizá-la? Não protegê-la com o nosso sistema legal? E o que dizer da prostituição masculina, e masculina guei, relegá-la ao escuro, ao gueto dos parques, periferias e outros locais de estigmatização? Ou orná-la do luxo e do certo respeito de que goza a familiar e meiga Tia C? Tolerar a presença de menores gueis na pseudoprostituição da JB?

O que nos resta, a nós, gueis e simpatizantes um pouco mais esclarecidos que as luzes violentadas pela prostituição suja e ilegal da JB, é apreciar o “escuro do mundo”, percorrer a estreita e gosmenta rua vizinha da Redenção, sob a proteção de nossos carros seminovos, imaginando que lindo seria um local seguro, limpo, com muitos corpos saudáveis e malhados à espera de clientes endinheirados, prostitutos maiores (a redenção aos domingos já deveria dar conta do afã por exposição do qual os menores gueis sofrem). O que realmente se quer, no entanto, é o escuro do mundo. É aí que “está o que você quer”.

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*Explicarei, espero!, em texto posterior, talvez com a ajuda de um intelectual-amigo, o que é e como se aplica a chamada “cultura da redenção”.

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~ por chlucaslima em março 21, 2010.

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