4 e 5 de maio de 2011

•maio 7, 2011 • Deixe um comentário

Acompanhei com muita felicidade o reconhecimento da união civil de pessoas do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal Federal nos últimos dias 4 e 5 de maio de 2011. Confesso que nenhuma apreensão tive, durante o processo de votação, com relação a uma possível negativa por parte dos magistrados. Seria um gigante retrocesso de nossa democracia – e do próprio sistema político brasileiro – uma recusa ou uma postergação ad infinitum do que já há muito tempo é fato, pois como diz a máxima do direito “dos fatos é que nasce o direito”.

Segue, no entanto, nosso combate diário, nós, brasileir@s que não nos contentaremos até que nossas sociedades – e aqui faço referência à Latinoamérica como um todo – não mais contemplem formas de discriminação, quer intitucional (como é o caso da negativa de direitos) quer social (homofobia). É necessária a militância nas casas, nas escolas, nas igrejas e, sobretudo, nas instituições universitárias, movendo nossas práticas acadêmicas – nossa teoria, pois teoria é ação, para citar o professor francês Antoine Companion – no sentido da mudança de paradigmas fossilizados.

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Ativismo Acadêmico

•abril 18, 2011 • Deixe um comentário

Olá amig@s do blog,

ultimamente não escrevi porque havia perdido a senha de meu blog devido a minha mudança para outra cidade do Brasil… tenho tantos mails e senhas.. Bem, o bom é que, a partir deste mês, voltarei a postar o que me parece interessante para a discussão de gênero, sexualidade, corpo, discriminação etc.

Até breve!

PRIMEIRO “BI”, DEPOIS “HOMO”: UMA PROPOSIÇÃO DE INTERPRETAÇÃO DO BRASIL BASEADA EM FREYRE

•setembro 7, 2010 • Deixe um comentário

Carlos Henrique Lucas Limai

Este texto tem por objetivo delinear uma contribuição e um deslize do texto freyano, qual seja o notável Casa Grande e Senzala, publicado pela primeira em 1933. O adjetivo “notável” talvez já dê uma notícia da opinião do autor deste texto em relação ao conteúdo de tal obra. O que ocorre, no entanto, é a relativização da totalidade dessa qualidade. Explico: tentarei expor, nestas breves linhas, que o argumento central de Freyre possui uma rachadura, exatamente no lugar onde mais precisaria ser quase impenetrávelii: na questão da miscigenação do negro escravo com o branco senhor. Em quanto à contribuição, somente à guisa de satisfação de uma solicitação acadêmicaiii, procurarei mostrar, amarrado à questão anterior, a derivação do pensamento freyano nos campos da literatura comparada, especialmente no que se refere aos estudos feitos por
Lucas Limaiv em disciplinas desta Universidade.
Olhando diretamente ao que pela primeira vez Freyre mostra como uma verdadeira
orgia cultural – senhor e escravo unidos por meio do sexo – o olho se nos salta do rosto
apontando para a figura do escravo negro de origem africana. é para essa figura que meu
cursor aponta, cuidando para chamar a atenção do leitor para uma possibilidade outra de
interpretação social e econômica do Brasil, uma vez que Freyre para ela não haja
atentado, (talvez devido ao hermetismo de seu protestantismo de importação) tenha se
detido na questão da miscigenação e da “muvuca” cultural, predecessora de nossos
carnavais de rua (quem sabe?), assíduas inquilinas de nossas casas-grandes e senzalas
Brasil afora, esquecendo outra importante faceta da cultura brasileira.
Apertando um pouco a lente da luta e aprumando o cursor do teclado, “escravo” é no
que penso, e em escravo negro que mantinha relações sexuais com homens, o que,
posteriormente, viria a ser denominado “homossexual”. Gostaria de me apoiar no
romance O Bom-Crioulo, de Caminha, cruzando o relato aí contido com a interpretação
social de Freyre, o que, penso, será menos produtivo e mais um exercício para pensar a
partir do polo da periferia, tanto intelectualv como literária. O “literário” fica por conta
do desprestígio que Caminha goza (ou não goza, já que quase nem aparecevi, pensando
em binômios, como nos ensina a linguística saussoureana).
Penso que a contribuição maior de Freyre tenha sido o reconhecimento da orgia casagrande
e senzala como ponto de tensão entre as duas classesvii que compunham o país à
época da colônia. O autor protestante nos irá aponta que os filhos bastardos das pretas
escravas puderam, poucos, gozar de algum quinhão na medida em que, com a morte de
seus pais-senhores (ou de sua bondade católico-sincrética), tenham sido abençoados
com alguns tostões, o que, na opinião do autor de Casa-Grande, teria auxiliado a
distribuir, em alguma medida, a renda em solo brasileiro. Na outra margem do
pensamento fica a seguinte cena: o escravo negro que trava relacionamento sexual (e
quiçá amoroso?) com o senhor branco. A obra literária evocada, O Bom-Crioulo, e é
preciso dizer, ambientada em um Brasil pós-colônia e pós-escravidão – apesar de bem
pouco “pós”, já que sua primeira publicação se deu na primeira metade da década de 90
do século XIX, nos presta enquanto objeto de análise; é a possibilidade de interpretação
da sociedade brasileira cruzada pelo envolvimento sexual do branco livre com o negro
escravo ou pós-escravo (o que não é muita diferença em termos de Brasil) que nos
ocupa nestas linhas.
A possibilidade de suplantação do branco pelo negro, em termos sociais é incogitável
quando se pensa no Brasil colônia. Mesmo a miscigenação, que Freyre bem mostra,
apenas caotiza o mapa brasileiro, lembrando os pedidos dos primeiros colonizadores
portugueses no clamor por mulheres brancas e católicas. Mas com a inserção da figura
do escravo negro homossexual, mesmo com o anacronismo da palavra, engendra uma
possibilidade de suplantação. Explico: é na presença do escravo negro que o senhor
branco despe-se de sua condição de europeu-católico-colonizador cedendo lugar ao
brasileiro, primeiro bissexual, e, depois, homossexual do século X X e X XI.viii
Freyre fala do enamoramento dos jovens senhores pelo “budum” das negras; por vezes,
diz o antropólogo, algumas peças de roupas das escravas novas tinham de ser levadas ao
leito nupcial para estimular os sentidos do jovem casado, acostumado às carícias
africanas. O negro homem também deve ter fascinado homens e mulheres brancos
(portugueses); mas o eixo de minha argumentação se estriba é na relação do homem
branco com o homem negro. Até mesmo porque senhoras solteiras autônomas era algo
de difícil existência na sociedade patriarcal brasileira; à exceção das viúvas, me faltam
fontes para ir além. Entretanto sobre os homens não há dúvida de suas extensas
possibilidade de sustentação dos “vícios” da carne com os escravos tão próximos: a um
estender d’olhos para o outro lado da residência senhorial.
A provocação aí está posta. O argumento de Freyre substancia uma visão social do
Brasil transpassada pela figura do negro homossexual, primeiro bi e depois homo, o que
dá conta de uma visão marxista da história, associando sexualidade a fatores sóciohistóricos.

____________________________________________________________
i
Acadêmico de Letras da UFRGS.
ii
Penso que, uma vez que é na casa-grande e senzala que se desenvolvem tanto o sistema econômico quanto
social do Brasil, seria nesse mesmo lugar onde deveria ter maior preparo na massa que une os tijolos que se apresentam
para interpretar o País.
iii
O presente texto tem por motivação solicitação do Prof. Luis Augusto Fischer, docente dos Programas de
Graduação e Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
iv
LUCAS LIMA, Carlos Henrique. Uma análise comparativa da personagem homossexual nos romances O
Bom-Crioulo e Onde Andará Dulce Veiga. Ensaio como requisito parcial para obtenção de grau na disciplina de
Literatura Comparada. (Ano de entrega 2008).
v
Provocação pautada em afirmação de Fischer, quando diz que gaúchos não disporiam da “ousadia” necessária
para propor novas interpretações do Brasil.
vi
Foram consultados os manuais de literatura brasileira de Merquior, Coutinho e Candido. Os comentários aí
existentes são por demais lacônicos.
vii
? inapropriada a utilização da terminologia marxiana no contexto da escravidão, posto que escravo não faz a
“roda” do capitalismo rodar. No entanto, quando aí a utilizo, tenho em vista a dupla divisão estamental do Brasil quase
feudal: senhores e escravos, detentores do meio e não-detentores do meio de produção.
viii
Tal interpretação está calcada, mais uma vez, no romance de Caminha, na medida em que Aleixo, a
personagem branca sufocada pelos caprichos do negro Amaro, torna-se bissexual na medida em que termina o romance
naturalista com a velha portuguesa Carola Bunda. Quanto à asserção concernente ao Século X X e X XI, pauto-me em
escritores modernos que mostram a “vitória” da homossexualidade, ou dos prazeres desprovidos de fronteira, sobre a
bissexualidade do século anterior. Penso, essencialmente, em Caio Fernando Abreu. (Ver o livro de novelas Triângulo
das Águas).

Igreja Evangélica para Gueis

•maio 25, 2010 • Deixe um comentário

Seria menos um absurdo e mais um “bênção” se houvesse igreja evangélica para gueis. Graças a Deus que não há! 
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Inicio este texto com a afirmação acima ironizando como seria o possível pensamento de alguns evangélicos se não houvesse as chamadas “igrejas gueis”. Mas leitor, elas existem sim, e a cada dia se proliferam pelo País templos e ministros cor-de-rosa com suas bíblias ostentando brilhantes adesivos de Madonna. 

É a realidade peculiar de nossa sociedade, por natureza antropofágica, devorando o  american christian fast-food, vomitando-o nas famintas bunitas brasileiras ex-seguidoras das religiões evangélicas tupiniquins. É o que temos hoje: o Sudeste brasileiro (e outras regiões, menos intensamente) campeão de franquias de igrejas americanas (ou de estilo americano).

O que temo, e se temo é porque já me bate à porta, é a normativização dos gueis gospel – o que já ocorre, se já, desde o começo da implantação das franquias já não ocorreu -, com a assimilação desses homossexual way of cristianism pelo stablishment religioso evangélico (pentecostal e outros segmentos, ou opções do cardápio), coisa essa que, se ocorresse, tiraria (se é que há?) o contraditório (não quis usar a palavra queer, mas cairia bem), e dessa forma desconstrutor, presente na equação GAY + EVANGÉLICO. 

Penso que, por um lado, a assimilação dos movimentos gueis evangélicos seria boa porque aceleraria a aceitação por parte da sociedade da diversidade, tanto de gênero quanto de formas de experimentação das sexualidades (uma hipótese); e, por outro lado, talvez fosse negativo pois, como disse, a partir da normativização de um modelo, um estilo de vida e conduta, se restringisse “o correto” (ou se criaria “o correto”, o que é um problema) ao guei inserido na família cristã, reprodutor de ideias fossilizadas.

Ainda não sei o que será melhor. Mas hein, há mesmo “o melhor”?

CH Lucas Lima
Twitter (criei hj!!!!), pode add!
Bjs!

Angels in America – comentário básico

•maio 1, 2010 • Deixe um comentário

Vi essa semana a mini-série americana Angels in America, de 2003, e que, pasmem, esse guei aqui ainda não havia visto! Às vezes a gente se cobra, e pensa que deve ler todos os livros do mundo e ver todos os filmes que tragam a temática LGBT à baila. Mas não é assim!

Vi a mini-série depois de sete anos de seu lançamento (foi lançado pela HBO em 2003) e ela me pareceu ainda genial e atual. Trata de uma dura e poética alucinada apresentação da vida de homossexuais cortados pela foice do HVI em plena década de 1980, período do “boom” da doença no mundo. É como se o filme dissesse (e ele quase, de fato, diz): “estamos ferrados, nós, os homossexuais, mas a culpa não é só nossa”. E é aí que o filme encontra seu caminho e ganha importância: na questão de desfazer a imagem preconceituosa (e religiosa) que diz que os gays são os responsáveis pela AIDS e, consequentemente, por sua sofrível morte em solidão e opróbrio.

O filme é repleto de imagens e referências bíblicas. Quem não é “iniciado” no discurso bíblico fica um pouco à margem da questão toda… mas ok. Dá pra sacar muita coisa apenas pelas referências que a mídia e uma boa catequese (católica ou protestante) ministram.

Recomendo a mini-série. E relembro meus leitores que o HIV ainda está por aí. Nossa luta ainda não terminou e, talvez, nunca terminará.

C.H Lucas Lima

Bjs e bom fim de semana.

E me disseram: “Aguente firme!”

•abril 7, 2010 • Deixe um comentário

É sempre um sentimento de perda que pelas manhãs vai crescendo dentro de mim. Perda pelos amigos que passaram, pelos amores que desvaneceram, pela família que se desestruturou e pelo tempo que lá fora é cada vez mais cinza, mais metal e tristeza.

Pela janela do meu quarto percebo o caminhar das pessoas, suas falas, até mesmo suas angústias posso sentir: na pressa dos pés, na cabeça prostrada quase à altura do umbigo buraco na barriga murcha de cansaço e comidas rápidas, nos pivetes pardos de sujeira e careados de crack até o cérebro.

Daí, ontem mesmo, abri as comportas de água turva em minha cabeça – essa mesma cabeça que um dia amou, foi amada, desejou e sonhou – e escutei, de um dos poucos amigos que me restaram: “aguente firme!”. Aquela coisa do REM: “hold on, hold on”, infinitamente holdoniando. Foi, talvez, uma espontaneidade que saiu da boca desse amigo, coisasquesedizemquandonaohanadamaisadizer. Mas sei que estou confortado. Em algum lugar de mim vê-se um sorriso-criança.

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Nota aos leitores: Desculpem a excessiva literaturização do texto. Não sei, “hoy estoy raro”. Mas daí, do texto – e dessa coisa de “literaturização” – se pode sacar muita coisa sobre o peso desse sentimento que quase-amassa nossas cabeças cotidianamente.

PCL 122, Martin Seempa e o Protestantismo Brasileiro

•março 21, 2010 • Deixe um comentário

Os caminhos que separam a normalidade da anormalidade são similares, muitas vezes paralelos e com o mesmo código postal. Faço referência à homossexualidade, orientação sexual daqueles que sentem atração por pessoas do mesmo sexo. Como nos diz o professor Félix López Sánches, catedrático de Psicología Evolutiva na Universidade de Salamanca – autor do livro Homossexualidade e Família – a homossexualidade é algo natural, uma condição pertencente ao ser do homem, devendo ser aceita e compreendida pela família e pela sociedade. Não é o que pensa no entanto o pastor Martin Seempa, ugandense militante anti-homossexual que há poucos dias iniciou uma jornada com vistas a endurecer a legislação que pune a homossexualidade no país africano.

Segundo o professor Sanchez, “pedestres” – para seguir com a metáfora dos caminhos – que foram educados em anos de forte regime ditatorial, como os do Brasil ou da Espanha de Franco, por exemplo, possuem comportamento sexofóbico, que envolve distorções não apenas na maneira de pensar, sentir e de medo “irracional da homossexualidade”, como ainda na forma de relacionar-se com a família: na maioria das ocasiões discriminando, e o que é pior, rechaçando parentes e amigos que sejam homossexuais.

A homossexualidade, como dizia para minha mãe outro dia desses, ninguém escolhe ser o que é: não se escolhe ser negro, ser idoso, ser brasileiro, tão somente se é; ninguém escolhe ser discriminado, rejeitado pela família, privado de expressar afeto em público. As pessoas são o que são, e como o que é normal para mim, aceitável, tolerável pode ser anormal, inaceitável e intolerável para o outro, a homossexualidade, em alguns campos do debate, é vista como anomalia e comportamento, classificação essa forjada com a clara intenção de desqualificar a discussão entorno da homofobia.

É o que pretende o citado pastor africano e um grupo de religiosos brasileiros que ignoram o fator orientação sexual, reduzindo-o a comportamento, argumentando lá, na África, que comportamento deve ser punido por lei, e aqui, no Brasil, desacelerando projetos de lei que visam criminalizar a homofobia, como o PCL 122.

A homossexualidade precisa, então, ser compreendida como orientação, como parte mesma do ser do homem para que se possa tolerar, respeitar e sobretudo proteger essa parcela da população, que apenas no Brasil sofre uma baixa a cada três dias.

Carlos Henrique Lucas Lima,
tradutor do livro Homossexualidade e Família e escritor.